Uma musicoterapeuta baiana na Alemanha

Diário de Viagem*

(Por Irene Madureira Keller, de Heidelberg – Alemanha, Novembro de 2007)
Pesquisas, pesquisas, pesquisas…e luta pela regulamentação.
Esses dois tópicos interligados resumem o panorama geral da Musicoterapia na Alemanha. Em torno deles, gera-se um debate inflamado que atualmente movimenta o meio acadêmico por aqui.

O que o musicoterapeuta alemão faz pela regulamentação da profissão? Pesquisas.

O Centro Alemão de Pesquisas em Musicoterapia(Instituto dr. Viktor Dulger) da
Universidade Estadual de Heidelberg tem como objetivo fundamentar a prática musicoterapêutica principalmente no campo da medicina, onde através de uma sofisticada aparelhagem acústico-sonoro desenvolve atualmente pesquisas qualitativas e quantitativas em Neurologia, Cardiologia, Oncologia e Dor Crônica . Das quais o resultado comprovado em Neurologia(pacientes com Parkinson, AVC e Tinnitus) ganharam, em 2006, o Premio Acadêmico Estadual „Inovacao e embasamento.

A mais nova(e já, por muitos, queridinha) linha de pesquisa Musicalische
Emotionserkennung
(Reconhecimento da emoção através da música), orienta-se no estudo comparativo de parâmetros musicais entre aspectos e interfaces culturais. Brasil, Corea do Sul, Indonesia e Alemanha serão os primeiros a serem “comparados“.

Vejo uma similaridade curiosa entre baianos e heidelberguianos. Todos somos rítmicos. Apesar do contexto Europeu, em Heidelberg tem batucada mas tudo sob o enquadre da “orquestra sinfônica” local. Sinto falta do nosso ziriguidum improvisado, onde cabe do olodum,axé, flamenco, timbalada, pagode ao pop-rock, MPB, Bossa e jazz, que só a Bahia tem. A Bahia é local e internacional, é preta e branca. Colorida e livre. “Que falta eu sinto de vocês (um bem), que falta me faz um xodó…”

Como boa “percussionista de Rua”, a leitura de notas musicais foi sempre um ponto com o qual eu nunca me preocupei, e o curso de Musicoterapia na Bahia não enfatizou esse ponto como o principal. Hoje acho de fundamental importância esse conhecimento, não só na prática clínica, mas principalmente para o campo de pesquisas científicas em musicoterapia.

A Clínica musicoterapêutica alemã em geral baseia-se no modelo Nordoff-Robins de musicoterapia músico-centrada. Aqui no Sul da Alemanha, desponta desde 2005 o modelo heidelberguiano de musicoterapia, alicerçado por resultados comprovados de pesquisa nos campos psicológicos e médicos.

Embora haja atendimento musicoterapêutico em consultórios particulares, em diversas instituições privadas e até em algumas públicas, trata-se apenas de sua “legitimação”. Vejam assim: a Musicoterapia é uma profissão legitimada, mas não regulamentada. Tendo como problema central a dificuldade em conseguir conveniar-se a Seguro de Saúde. Aqui na Alemanha, como no Brasil.

Além dos conhecimentos necessários para ingressar numa Universidade, aqui na Alemanha para cursar Musicoterapia, tem-se como pré-requisito o conhecimento musical. No mestrado o conhecimento musical é também de fundamental importância, mas não pré-requisito. Explico: O mestrado em musicoterapia é dividido em dois grupos, o nicht-konsekutivmasterstudiengang e o „Konsekutivmarterstudiengang. Esse segundo é destinado só e exclusivamente a musicoterapeutas graduados, portanto essencialmente músicos, sendo o nicht-konsekutiv aberto para profissionais de áreas afins.

Aqui na Alemanha temos Faculdades de Musicoterapia nos quatro pontos cardeais, sendo o ponto central e mais divulgado a Universidade de Heidelberg no Sul da Alemanha, onde faço atualmente o meu mestrado.

A Faculdade de Musicoterapia da Universidade de Heidelberg oferece um Serviço de Musicoterapia à Comunidade, que funciona como centro de pesquisa clínica.

A Sociedade Alemã de Musicoterapia tem sido de fundamental importância na luta pelo reconhecimento e regulamentação da profissão. Composta por profissionais sérios e estudantes apaixonados, ganha cada dia mais credibilidade no meio Acadêmico alemão e europeu.

Aqui na Alemanha, como no Brasil, na graduação, cursa-se 8 semestres e parece-me que no resto do mundo também. Muitos fazem cursos de especialização, pós-graduação, doutorado… E não temos uma profissão regulamentada globalmente. Fazer o que…? Pesquisar e lutar.

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* Texto escrito por Irene Keller (na época, estudante do Mestrado de Musicoterapia da Universidade de Heidelberg – Al) especialmente para o V Fórum Baiano de Musicoterapia.